Antes de começar, permita-se alguns segundos para sair do automático e perceber o que esta leitura pode trazer para a sua própria experiência.
Enquanto lê, respire e faça uma pausa, por alguns instantes, no que estiver fazendo. Leia cada palavra deste conteúdo com atenção e perceba onde ele se conecta com você, com o seu trabalho e com as experiências que está vivendo. Não é necessário encontrar uma resposta. Apenas perceba o que você reconhece.

Muitas vezes, nós não compreendemos racionalmente por que nos sentimos tão cansados ao realizar tarefas que, aparentemente, não deveriam exigir tanto de nós.
Então procuramos soluções.
Aprendemos a utilizar sistemas de organização, agendas, aplicativos, automações e ferramentas capazes de reduzir o tempo necessário para realizar uma tarefa. Tentamos organizar melhor o dia, eliminar etapas desnecessárias, aumentar a produtividade e diminuir o estresse provocado pela sensação de que nunca conseguimos fazer tudo o que precisamos.
Esses recursos podem, de fato, facilitar o trabalho.
Mas existe uma pergunta anterior que talvez precise ser observada:
E se parte do esforço que tentamos eliminar externamente estiver sendo produzido internamente?
Porque podemos aprender a trabalhar mais rápido sem necessariamente aprender a trabalhar de outra maneira.
O esforço pode ter sido aprendido antes da profissão
Ao longo da nossa formação, vamos construindo referências sobre o que significa trabalhar, produzir e receber dinheiro pelo que fazemos.
Algumas dessas referências podem associar trabalho a esforço excessivo.
Trabalhar muito pode ter sido apresentado como sinal de responsabilidade. Cansar-se pode ter sido interpretado como prova de dedicação. Ter dificuldade pode ter sido entendido como parte natural do processo. E receber dinheiro pelo trabalho pode ter ficado associado, de maneira mais ou menos consciente, à ideia de que é preciso sofrer, insistir ou se sacrificar para merecê-lo.
Quando essa relação é validada repetidamente, ela pode deixar de parecer uma escolha.
Passa a parecer simplesmente “como as coisas são”.
E é justamente aí que podemos começar a reproduzir comportamentos que mantêm o esforço mesmo quando o esforço adicional já não é necessário.
Não precisamos fazer isso deliberadamente.
Podemos procrastinar uma tarefa simples até que ela se transforme em urgência.
Podemos revisar excessivamente algo que já está suficientemente bom.
Podemos adiar uma decisão porque ainda não conseguimos enxergar todos os seus possíveis desdobramentos.
Podemos criar complexidade onde existia uma próxima etapa relativamente simples.
Podemos esperar pelo momento ideal para começar.
E, no final, o dia fica mais pesado.
O corpo também participa dessa construção
Nem sempre o que chamamos de falta de produtividade é falta de capacidade.
Às vezes, existe um comportamento automático tentando reproduzir uma condição que já foi considerada necessária.
Se, em algum momento, aprendemos que aquilo que tem valor precisa exigir muito esforço, podemos acabar produzindo esforço mesmo quando existem alternativas mais simples.
É uma diferença importante.
Não estamos falando apenas de administrar melhor o tempo.
Estamos falando de perceber como realizamos aquilo que fazemos.
Duas pessoas podem ter a mesma tarefa, o mesmo prazo e as mesmas ferramentas, mas atravessar processos internos completamente diferentes.
Uma pode perceber a tarefa, definir o próximo passo e realizá-lo.
Outra pode experimentar pressa, dúvida, medo de errar, necessidade de controle, preocupação com o resultado, perfeccionismo e dificuldade para começar.
Externamente, ambas estão “fazendo o trabalho”.
Internamente, porém, uma delas pode estar gastando uma quantidade muito maior de energia para realizar a mesma coisa.
O problema não é apenas o sistema
Hoje temos ferramentas cada vez mais sofisticadas para organizar o trabalho.
Podemos automatizar tarefas, utilizar inteligência artificial, criar fluxos, integrar agendas, estabelecer lembretes e acompanhar processos.
Mas um sistema externo não necessariamente modifica o processo interno que produz atraso.
Se existe medo de não dar conta, podemos utilizar uma agenda perfeitamente organizada e continuar adiando.
Se existe necessidade de fazer tudo de maneira impecável, podemos ter o melhor sistema de gestão e continuar gastando energia excessiva em detalhes.
Se existe dificuldade para escolher, podemos ter todas as informações disponíveis e continuar paralisados diante da decisão.
Se existe uma urgência permanente para obter resultados, podemos organizar cada minuto do dia e ainda assim permanecer em estado de pressa.
Por isso, talvez a questão não seja apenas:
“Como posso fazer isso mais rápido?”
Talvez seja também:
“O que acontece em mim quando percebo que posso fazer isso de maneira mais simples?”
Essa pergunta pode revelar algo que um sistema de produtividade não consegue identificar.
Quando a eficiência começa a confrontar uma antiga referência
Existe uma diferença entre utilizar ferramentas para facilitar o trabalho e utilizar ferramentas tentando compensar um padrão interno que continua produzindo dificuldade.
No primeiro caso, a tecnologia amplia nossa capacidade.
No segundo, podemos simplesmente criar uma estrutura mais sofisticada para sustentar o mesmo funcionamento.
É possível ter mais organização e continuar sobrecarregado.
É possível ter mais velocidade e continuar cansado.
É possível produzir mais e continuar sentindo que nunca é suficiente.
E talvez isso aconteça porque ainda estamos tentando resolver externamente uma referência que precisa ser percebida internamente.
Se trabalho e esforço foram associados durante muito tempo, tornar o trabalho mais leve pode produzir uma sensação inesperada.
Pode parecer que estamos fazendo pouco.
Pode surgir culpa.
Pode aparecer a necessidade de acrescentar alguma dificuldade.
Pode existir uma sensação de que algo está faltando porque aquilo que antes era considerado “trabalho de verdade” deixou de estar presente.
Essa percepção é importante.
Ela mostra que mudar um comportamento nem sempre significa apenas aprender uma técnica nova.
Às vezes, significa perceber que uma regra antiga deixou de fazer sentido.
Uma nova relação com o trabalho começa pela percepção
Talvez o trabalho não precise ser definido pela quantidade de esforço que conseguimos suportar.
Talvez o valor do que fazemos não esteja proporcionalmente relacionado ao quanto conseguimos nos cansar para realizá-lo.
Isso não significa eliminar responsabilidade, dedicação ou comprometimento.
Significa diferenciar dedicação de sobrecarga.
Responsabilidade de tensão permanente.
Excelência de perfeccionismo.
Clareza de controle.
Velocidade de pressa.
Quando conseguimos perceber essas diferenças, podemos começar a escolher de outra maneira.
Em vez de perguntar somente como fazer mais, podemos observar como estamos fazendo.
Onde estamos criando dificuldade?
Onde estamos adiando algo que poderia ser iniciado?
Onde estamos exigindo de nós uma perfeição que a situação não exige?
Onde estamos tentando controlar um resultado que ainda não está sob nosso controle?
Onde estamos transformando uma tarefa simples em algo maior do que ela realmente é?
Essas perguntas não servem para produzir uma nova cobrança.
Servem para aumentar a percepção.
Porque, antes de mudar a forma de trabalhar, talvez seja necessário perceber a regra que ainda está organizando o nosso trabalho.
A leveza também pode exigir aprendizagem
Talvez uma das mudanças mais profundas na relação com o trabalho aconteça quando deixamos de considerar o esforço excessivo como prova de valor.
A tecnologia pode reduzir etapas.
Os sistemas podem organizar processos.
As ferramentas podem aumentar a velocidade.
Mas existe uma parte dessa transformação que depende da nossa capacidade de perceber o que ainda estamos reproduzindo.
Quando identificamos que não precisamos mais transformar toda tarefa em uma prova de esforço, abre-se uma possibilidade diferente.
Não a de fazer menos por fazer menos.
Mas a de realizar aquilo que precisa ser realizado sem acrescentar, automaticamente, dificuldades que já não são necessárias.
Talvez o próximo avanço na produtividade não esteja em encontrar mais uma ferramenta.
Talvez esteja em perceber o que dentro de nós ainda acredita que trabalhar bem precisa ser difícil.
Protocolo Ressignificar o Trabalho
Uma experiência voltada à ressignificação da relação com o trabalho, às escolhas, ao posicionamento profissional e ao desenvolvimento da consciência aplicada nesse contexto.
Conhecer o protocolo →Conheça a Metodologia CMAD
Conheça a metodologia que fundamenta o trabalho desenvolvido pelo CMADI.
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