Quando somos crianças, ouvimos muitas coisas sobre o que significa crescer.

“Enquanto você é criança, aproveite.”

“Depois você vai ver como é difícil.”

“Crescer dá trabalho.”

“Você ainda não sabe o que é ter responsabilidade.”

Essas frases podem parecer apenas comentários de adultos tentando preparar uma criança para a vida. Mas algumas delas permanecem muito além daquele momento.

Quando uma pessoa cresce ouvindo repetidamente que crescer é difícil, pode começar a construir uma expectativa sobre aquilo que encontrará pela frente. Estudar será difícil. Trabalhar será difícil. Ganhar dinheiro será difícil. Ter responsabilidades será difícil.

E, quando chega ao primeiro trabalho, encontra algo que parece confirmar tudo o que ouviu.

Existem regras.

Existem cobranças.

Existem pessoas que não possuem com ela a mesma relação de cuidado que encontrou na família.

Existem responsabilidades que não podem simplesmente ser adiadas.

Existem resultados que precisam ser entregues.

A experiência parece dizer:

“Eles estavam certos. Crescer é difícil.”

É nesse ponto que uma ideia deixa de ser apenas uma frase ouvida no passado e passa a participar da maneira como uma pessoa interpreta a própria realidade.

Cada dificuldade pode começar a funcionar como uma confirmação.

Uma nova responsabilidade confirma.

Uma cobrança confirma.

Um conflito confirma.

Uma mudança confirma.

Até mesmo o esforço necessário para desenvolver uma nova capacidade pode ser interpretado como mais uma prova de que crescer realmente é difícil.

Mas existe uma diferença importante entre encontrar dificuldade no crescimento e acreditar que a dificuldade é o próprio crescimento.

Essa diferença muda a maneira de olhar para o trabalho.

Quando o trabalho confirma aquilo que já esperávamos

Uma pessoa pode entrar no mercado de trabalho esperando encontrar dificuldades.

Quando elas aparecem, sua consciência não precisa necessariamente investigar o que aquela situação está pedindo dela.

Pode simplesmente reconhecer aquilo que já conhecia.

“É difícil.”

E seguir.

A questão é que, quando uma percepção se torna familiar, ela pode deixar de ser questionada.

O que deveria provocar investigação passa a produzir adaptação.

A pessoa aprende a suportar.

Aprende a cumprir.

Aprende a responder.

Aprende a buscar segurança.

Mas nem sempre aprende a perceber o que precisa desenvolver.

Isso pode criar uma situação curiosa.

A pessoa trabalha para crescer, mas sua referência de crescimento continua sendo aquilo que ouviu sobre o crescimento.

E, em muitos ambientes, existe ainda outra associação muito forte: crescer significa ganhar dinheiro.

Assim, o retorno financeiro passa a representar uma espécie de confirmação.

“Agora deu certo.”

“Agora estou crescendo.”

“Agora valeu a pena.”

O problema não está no desejo de ganhar dinheiro.

O problema está quando o resultado financeiro passa a ser tratado como a única evidência de desenvolvimento.

O que você foi buscar quando começou a trabalhar?

Essa pergunta pode ser mais profunda do que parece.

Quando alguém começa a trabalhar, pode acreditar que está simplesmente procurando uma oportunidade, uma profissão ou uma fonte de renda.

Mas também pode estar buscando, sem perceber, uma confirmação.

A confirmação de que finalmente cresceu.

A confirmação de que conseguiu deixar para trás uma condição anterior.

A confirmação de que agora é alguém bem-sucedido.

Nesse caso, o trabalho deixa de ser apenas um espaço de atuação.

Ele passa a carregar uma expectativa muito maior.

E toda dificuldade encontrada pode ser interpretada como algo que precisa ser superado para finalmente chegar ao resultado esperado.

Só que algumas dificuldades não estão diretamente relacionadas ao resultado financeiro.

Elas podem estar relacionadas à capacidade de decidir.

De sustentar uma responsabilidade.

De lidar com uma mudança.

De receber uma orientação sem perder autonomia.

De assumir uma posição.

De desenvolver uma habilidade que ainda não existe.

De reconhecer que determinado comportamento já não produz o mesmo resultado.

Essa percepção muda tudo.

Porque talvez algumas das dificuldades que aparecem no trabalho não estejam dizendo:

“Você precisa trabalhar mais.”

Talvez estejam mostrando:

“Existe algo que você ainda precisa desenvolver.”

Crescer não é apenas chegar a outro lugar

Existe uma diferença entre alcançar uma posição e estar preparado para sustentá-la.

Uma pessoa pode desejar liderar, mas ainda precisar desenvolver capacidades relacionadas à tomada de decisão.

Pode desejar autonomia, mas ainda depender constantemente da validação de alguém.

Pode desejar reconhecimento, mas ainda não ter desenvolvido a consistência necessária para sustentar aquilo que deseja receber.

Pode desejar melhores resultados financeiros, mas ainda não ter ampliado as capacidades necessárias para sustentar esse novo nível de responsabilidade.

Nesse sentido, o desenvolvimento não acontece somente quando o resultado aparece.

Ele também acontece durante o caminho que torna esse resultado sustentável.

Talvez seja por isso que algumas experiências profissionais pareçam voltar com diferentes formas.

Muda o cargo.

Muda a empresa.

Muda o salário.

Muda a responsabilidade.

Mas determinada dificuldade continua aparecendo.

Quando isso acontece, talvez valha observar menos a situação externa e mais aquilo que a situação continua solicitando de nós.

Com qual idade você trabalha?

Existe uma pergunta simples que pode abrir uma percepção interessante:

Quando você vai para o trabalho, com qual idade você vai na sua consciência?

Não se trata da idade cronológica.

Trata-se da forma como você se posiciona diante daquilo que acontece.

Em algumas situações, podemos agir a partir de uma posição já desenvolvida.

Em outras, podemos responder como alguém que ainda procura aprovação, proteção, reconhecimento ou segurança.

Isso não significa que exista algo errado.

Significa apenas que diferentes experiências podem ativar diferentes formas de perceber e responder.

Perceber isso devolve uma possibilidade importante: a escolha.

Se uma maneira de responder foi construída ao longo do tempo, ela também pode ser observada.

E aquilo que pode ser observado pode deixar de funcionar automaticamente.

Talvez crescer não seja o problema

Talvez o problema esteja naquilo que aprendemos a esperar do crescimento.

Se crescemos acreditando que crescer é difícil, podemos passar anos procurando provar que essa afirmação estava certa.

Podemos transformar esforço em valor.

Dificuldade em mérito.

Resultado financeiro em confirmação.

E trabalho em uma espécie de prova permanente de que finalmente conseguimos chegar a algum lugar.

Mas existe outra possibilidade.

Olhar para cada dificuldade e perguntar:

O que essa situação está me mostrando que ainda preciso aprender para sustentar o que desejo construir?

A pergunta muda o lugar da dificuldade.

Ela deixa de ser apenas algo a ser suportado.

Passa a ser uma oportunidade de perceber.

E talvez essa seja uma diferença importante entre simplesmente trabalhar para alcançar um resultado e desenvolver-se enquanto trabalha.

Porque crescer não precisa significar apenas deixar de ser criança.

Também não precisa significar apenas trabalhar, ganhar dinheiro ou ocupar uma posição maior.

Pode significar perceber quem estamos sendo diante das responsabilidades que escolhemos assumir.

E, principalmente, perceber quais capacidades estamos dispostos a desenvolver para sustentar aquilo que dizemos querer.

Talvez crescer não seja difícil.

Talvez crescer simplesmente nos coloque diante daquilo que ainda precisamos aprender.

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