Preparação para Leitura CMADI

Antes de começar, permita-se alguns segundos para sair do automático e perceber o que esta leitura pode trazer para a sua própria experiência.

Permita-se ler em presença.

Enquanto lê, respire e faça uma pausa, por alguns instantes, no que estiver fazendo. Leia cada palavra deste conteúdo com atenção e perceba onde ele se conecta com você, com o seu trabalho e com as experiências que está vivendo. Não é necessário encontrar uma resposta. Apenas perceba o que você reconhece.

Há uma pergunta que pode parecer simples, mas que merece ser observada com mais atenção:

Por que você percebe tantas coisas, conversa com tantas pessoas, atravessa tantas situações e, ainda assim, sente que não está aprendendo nada novo?

Talvez a resposta não esteja na falta de experiências.

Talvez esteja na forma como você está presente nelas.

Todos os dias entramos em contato com pessoas diferentes, ouvimos opiniões, enfrentamos situações inesperadas, realizamos tarefas, tomamos decisões e recebemos informações que poderiam ampliar nossa percepção.

Mas quantas dessas experiências realmente nos atravessam?

Quantas vezes estamos diante de alguma situação apenas esperando que ela termine?

Você pode estar conversando com alguém enquanto pensa na próxima tarefa. Pode estar realizando uma atividade enquanto se pergunta por que precisa continuar fazendo aquilo. Pode estar em um ambiente profissional observando tudo o que considera inadequado, injusto ou sem sentido, enquanto internamente já decidiu que aquele lugar não serve para você.

E, quando isso acontece, é fácil concluir:

“O problema é o ambiente.”

Talvez seja a tarefa.

Talvez sejam as pessoas.

Talvez seja a empresa.

Talvez seja a forma como tudo está organizado.

E pode ser que existam, de fato, aspectos do ambiente que precisem ser modificados. Perceber isso também faz parte de uma relação consciente com o trabalho.

Mas existe outra pergunta que pode ser mais difícil de fazer:

E se eu estiver tão ocupado tentando confirmar que isso não funciona para mim que já não consigo perceber o que essa experiência está me mostrando?

Quando a experiência deixa de ensinar

Aprender não depende apenas de receber informações novas.

Depende também da nossa disposição para perceber o que acontece enquanto estamos vivendo.

Quando entramos no automático, nossa atenção tende a selecionar aquilo que confirma o que já pensamos.

Se você acredita que determinada tarefa não faz sentido, provavelmente perceberá com mais facilidade tudo aquilo que comprova essa ideia.

Se acredita que as pessoas ao seu redor não contribuem para o seu desenvolvimento, provavelmente identificará rapidamente os comportamentos que reforçam essa percepção.

Se acredita que o ambiente profissional está impedindo seu crescimento, poderá passar a observar o ambiente principalmente a partir dessa conclusão.

E, pouco a pouco, a experiência deixa de ser um espaço de investigação e passa a ser apenas uma confirmação.

Você continua vivendo.

Continua trabalhando.

Continua conversando.

Mas aprende pouco sobre si mesmo a partir de tudo isso.

Não necessariamente porque não existam coisas novas para aprender.

Talvez porque você já esteja chegando às situações com uma resposta pronta.

Existe uma diferença entre desejar e conseguir sustentar

Essa percepção se torna ainda mais importante quando estamos diante de uma mudança profissional.

Muitas vezes sabemos o que desejamos.

Queremos uma atividade diferente, uma posição diferente, mais autonomia, melhores resultados, uma nova direção ou uma forma mais coerente de viver o trabalho.

O desejo pode estar bastante claro.

Mas clareza sobre o que queremos não significa, necessariamente, capacidade para sustentar as mudanças necessárias para chegar até lá.

É possível desejar uma nova realidade e, ao mesmo tempo, continuar repetindo comportamentos que pertencem à realidade anterior.

É possível decidir mudar e continuar evitando os conflitos internos que aparecem quando a mudança começa a exigir atitudes diferentes.

É possível querer um resultado novo sem ainda ter desenvolvido os recursos necessários para sustentá-lo.

Nesse ponto, talvez a pergunta mais importante não seja apenas:

“O que eu quero?”

Mas:

“O que eu preciso desenvolver em mim para conseguir sustentar aquilo que quero construir?”

Essa pergunta muda a posição de quem observa.

Em vez de procurar imediatamente aquilo que precisa ser eliminado do ambiente, começamos a perceber também aquilo que precisa ser desenvolvido em nós.

Estar presente é participar da própria decisão

Estar presente não significa gostar de tudo o que fazemos.

Também não significa aceitar qualquer situação.

Presença é conseguir observar o que está acontecendo antes de transformar imediatamente a experiência em uma conclusão.

É perceber o desconforto sem fugir dele.

É reconhecer uma insatisfação sem precisar atribuí-la imediatamente a alguém.

É conseguir perguntar o que aquela situação revela sobre nossas escolhas, nossos limites, nossas expectativas e aquilo que ainda precisamos aprender.

Quando fazemos isso, a decisão deixa de ser apenas uma reação.

Começamos a participar dela de forma mais consciente.

E talvez seja justamente aí que uma mudança se torna mais sustentável.

Porque uma decisão não se sustenta apenas quando sabemos o que queremos.

Ela se sustenta quando conseguimos integrar as mudanças que essa decisão exige à forma como estamos vivendo.

Crescer também é encarar o que já não serve

Crescer profissionalmente não significa apenas acumular conhecimento, conquistar resultados ou assumir novas responsabilidades.

Também significa amadurecer a capacidade de olhar para aquilo que já não funciona sem precisar fugir imediatamente.

Algumas referências foram importantes em determinado momento e podem não fazer mais sentido hoje.

Alguns comportamentos ajudaram a proteger você em uma fase da vida e podem, agora, limitar suas possibilidades.

Algumas escolhas fizeram sentido quando foram tomadas, mas precisam ser revistas porque você também mudou.

Isso exige presença.

E exige disposição para reaprender a olhar.

Talvez por isso algumas mudanças sejam tão difíceis: não basta decidir para onde queremos ir. Precisamos também perceber o que, dentro de nós, ainda está organizado para permanecer onde estamos.

Enquanto desejarmos realizar algo que ainda não conseguimos sustentar, a tendência de repetir resultados pode permanecer.

Não porque exista uma condenação à repetição.

Mas porque resultados diferentes geralmente exigem formas diferentes de perceber, decidir e agir.

E talvez essa seja uma das perguntas mais importantes que podemos levar para o trabalho:

Estou apenas tentando mudar o resultado ou estou realmente me tornando capaz de sustentar a mudança que esse resultado exige?

Talvez você não esteja aprendendo nada novo porque não esteja faltando experiência.

Talvez esteja faltando presença para perceber o que a experiência já está tentando mostrar.

E talvez o próximo passo não seja encontrar outro lugar, outra tarefa ou outra pessoa.

Talvez seja aprender a estar inteiro diante daquilo que você está vivendo para então decidir, com mais clareza, o que realmente precisa mudar.

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